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Reed: O homem que mudou a forma como vemos televisão

A televisão divide-se em duas eras: a. N. e d. N. (antes da Netflix e depois da Netflix).

No mundo a. N., as pessoas viam televisão em directo, gravavam os seus programas favoritos e, numa fase mais adiantada, recorriam ao DVR, a box que guarda, na melhor das hipóteses, os últimos sete dias da programação. No mundo d. N., as pessoas vêem os programas que querem, na quantidade que lhes apetece, durante o tempo que forem capazes. A Netflix mudou a maneira como vemos TV e acrescentou uma nova expressão ao vocabulário popular, que, aliás, foi eleita a palavra do ano em 2015 pelo Collins English Dictionary: binge-watching. Ou seja, a capacidade de passar horas seguidas a ver consecutivamente vários episódios da mesma série, uma versão do século XXI da clássica maratona que muitos canais promoviam, isto nos idos da televisão.

O homem por detrás da revolução chama-se Reed Hastings, fundador e CEO da Netflix, o maior êxito da história no cruzamento da tecnologia com a televisão.

O que começou por ser um serviço de aluguer de DVD por e-mail transformou-se na forma mais p er televisão dos nossos tempos. Um inquérito feito em
2013 pela Netflix concluiu que 61% dos seus assinantes nos Estados Unidos praticam o binge-watching regularmente. Isto foi há três anos; hoje, a percentagem deverá ser maior…
“O que é que você fez em todas as noites do último mês que não viu Netflix? É com isso que vamos competir”, atirou recentemente Hastings do alto do estrondoso sucesso da sua empresa: 81 milhões de assinantes em mais de 130 países do mundo, mais de 100 séries e filmes originais e uma capitalização de 41 mil milhões de dólares que fez com que este ano saltasse 95 lugares na lista da Fortune 500,para o número 379.

A grande expansão da Netflix chegou em Janeiro deste ano, quando foi lançada simultaneamente em 130 países de todos os continentes, África incluída. Esteja onde estiver, em Luanda, em Lisboa ou em Lahore, é agora possível assistir, a qualquer hora e no dispositivo à escolha, a séries como House of Cards, porventura o maior êxito de sempre da Netflix, ou a filmes originais, como o africano Beasts of no Nation. Na altura, Reed Hastings anunciou, triunfante: “Hoje testemunhamos o nascimento de uma nova rede global de televisão na Internet. Estamos a colocar o poder nas mãos dos consumidores, para verem quando quiserem, onde quiserem, em qualquer dispositivo.”

Aventura africana

Wilmot Reed Hastings Jr. nasceu 8 de Outubro de 1960, em Boston, filho de um advogado que trabalhou para a Administração de Richard Nixon. O jovem Reed chegou a ingressar nos Marines, que acabou por trocar pelo Peace Corp, um corpo de voluntários, gerido pelo governo dos Estados Unidos, que presta auxílio em todo o mundo. Motivado pelo que chamou de “uma combinação de serviço e aventura”, Hastings foi ensinar Matemática para a Suazilândia, experiência que viria a classificar como decisiva para o moldar do seu espírito empreendedor.

“Depois de ter andado à boleia em África com 10 dólares no bolso, começar um negócio não parece muito intimidante”, disse em 2007, numa entrevista à CNN.

Quando realizou a sua aventura africana, Hastings já tinha no currículo um bacharelato em Matemática. Após o regresso aos Estados Unidos, ingressou na Universidade de Stanford, de onde acabaria por sair com um mestrado em Inteligência Artificial e decidido a fazer carreira no mundo empresarial. Meu dito meu feito, e em 1991 Reed Hastings fundou a sua opular d
primeira empresa, a Pure Software, que conseguiu o feito de duplicar a receita anualmente até ser comprada, em 1995, pela Rational Software. Hastings ganhou 750 milhões de dólares com a venda e o que decidiu fazer com o dinheiro mudou a história da televisão.

Ou, pelo menos, assim reza a história. Num mundo onde o CEO é, amiúde, celebrado e investido de poderes quase sobre-humanos – e pago a condizer –, a criação das empresas mais famosas do mundo tem uma mitologia própria, geralmente feita de momentos eureka e epifanias. No caso de Reed Hastings, o gatilho foi uma multa de 40 dólares pela devolução tardia de um vídeo no Blockbuster e a indignação consequente que o levou, a meias com o amigo Marc Randolph, a fundar uma empresa de aluguer de DVD via e-mail em 1997, que baptizou com o nome de Netflix. As boas histórias precisam sempre de um toque de ironia e, passados três anos, Hastings ofereceu à Blockbuster a hipótese de ficar com 49% da sua empresa para armar o gigante dos clubes de vídeos com um braço online,que entretanto a Netflix começara a desenvolver, encorajado pelo sucesso instantâneo de um certo YouTube. A recusa da Blockbuster merece, obviamente, um lugar de destaque no galarim das maiores burradas empresariais de sempre…

A Blockbuster passou à história, a Netflix continuou a fazer história. Em 2005, a empresa, naturalmente instalada em Silicon Valley, já somava mais de quatro milhões de assinantes e a vida do seu fundador tornara-se num verdadeiro sonho pós-moderno: Reed, a mulher, Patty, e os dois filhos do casal alugaram uma casa em Roma e ele dividia o mês em duas semanas em Itália e duas semanas na Califórnia.

Mais exactamente na localidade de Los Gatos, casa da Netflix, onde, reza mais uma vez a história, Reed Hastings não possui, como o CEO que se preze, um gabinete próprio: anda de secretária em secretária e, quando precisa de pensar, isola-se numa sala, que baptizou de Torre do Inferno, construída no topo do edifício sede da empresa.

Hastings segue também a louvável cartilha dos empresários de Silicon Valley e devota grande parte do dinheiro que ganha à filantropia: em 2012 assinou o célebre compromisso promovido por Bill e Melinda Gates de doar parte da sua fortuna, conquistando pontos acrescidos pelo facto de, na altura, ainda não ser milionário. E, finalmente, conquistou um lugar no coração dos seus funcionários quando a Netflix anunciou que iria instituir licenças de maternidade e paternidade sem limite de tempo.

Por Paulo Narigão Reis

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