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António Pacavira, o “boss” do Ensino Particular

Passaram-se 25 anos desde a liberalização do mercado de ensino e, sequencialmente, o surgimento das primeiras escolas particulares no País. O presidente da Associação Nacional do Ensino Particular (ANEP), António Pacavira, fala da Associação e de particularidades do negócio.

Depois de um período de crescimento, o sector do ensino, actualmente, caracteriza-se por uma fase de desenvolvimento e modernização, com o aumento do número de instituições de ensino enquadradas na classe A e quase todas elas com condições superiores às exigidas por lei para fazer parte da referida primeira classe.

“A lei tem determinada tipificação para se poder estar no grupo A, mas há colégios que têm mais do que o que é exigido. Por exemplo, a lei não exige uma piscina, balneários, campo de jogos, mas algumas instituições têm-nos, inclusive até área de cinema”, explicou o presidente da Associação Nacional do Ensino Particular, António Pacavira.

Em conversa com a Rumo, aborda o período do surgimento da primeira instituição particular de ensino aos desafios actuais. Entre vários assuntos, estima que desde a publicação, em 2010, da lei que classifica as instituições do ensino particular se registou um crescimento na ordem de 90% no número de colégios da classe A.

“Tínhamos apenas 15 colégios no grupo A, hoje temos acima de 150.”

Isto significa que houve um trabalho muito profissional por parte quer da Associação quer de alguns mentores ou promotores, e não me refiro apenas a Luanda. O mês passado visitámos a cidade do Huambo e com muito agrado vimos colégios muito bons, e posso falar o mesmo da Huíla, Benguela,Cabinda, e um pouco por todo o País já temos colégios muito bem classificados.”

Considera-se satisfeito por existirem muitos que, em dois ou três anos, ascenderam do “grupo C para o A, porque foram fazendo um investimento contínuo”, elogia, para depois alertar para que “na classe C existem aqueles colégios que estão na fase de extinção por falta de investimentos contínuos”.Pacavira estima em cerca de três milhões de dólares o investimento necessário para erguer um colégio de primeira classe. “O investimento dos colégios depende muito daquilo que se quer. Se for um colégio do grupo A, irá trabalhar num sistema integral (onde a criança fica das 8 às 17 horas, tem o currículo normal no período da manhã e o enriquecimento curricular e actividades extra no período da tarde). Tudo isto requer alimentação e uma estrutura que se adeqúe. Desde a construção até ao início da actividade (o que, em teoria, chamamos de ‘chave-na-mão’), estamos a falar de um investimento na ordem de três milhões de dólares.”

Achando que é um negócio “rentável mas que exige paciência”, o presidente aponta a boa formação dos estudantes como o principal retorno do investimento no sector. “O retorno não é imediato, é um negócio que ‘vende’ valor, porque forma indivíduos, forma capital humano, e para quem ama a educação este é o grande retorno: ver indivíduos bem formados, bem qualificados e a darem cartas no mercado nos mais diversos ramos. O dinheiro vem em consequência da questão do valor moral e social que a educação tem.”

Em termos financeiros, como quase todos os outros negócios, o do ensino particular exige “uma gestão muito rigorosa”.

“Posso garantir que aqueles que estão no mercado há muitos anos já vão tendo bons rendimentos. Tiveram agora uma tempestade face à crise, mas, de uma forma geral, já têm rendimentos significativos. Em termos globais, se falarmos de um colégio com cerca de mil alunos e propinas que vão de 45 a 80 mil kwanzas, falamos de uma renda bruta aparentemente boa e de uma facturação mensal de cerca de 50 milhões de kwanzas, o que já é significativo para qualquer negócio.”
Segundo estimativas do gestor, em média, a margem de lucro dos colégios oscila entre 20% e 30%, “mas este ano, devido à situação da crise e considerando os custos de investimento, manutenção e materiais, devem estar entre 15% e 25%, e isso nos casos em que há rigor na gestão”.

Por isso António Pacavira defende a necessidade de as instituições solicitarem os diversos serviços de manutenção de forma corporativa, para reduzirem os custos. “O mercado, hoje, oferece muito mais alternativas (de serviços de manutenção), temos é que trabalhar de forma organizada, e aí o papel fulcral do associativismo, no caso da ANEP. Temos recomendado aos sócios nunca negociarem de forma individual. Isto porque, se colocarmos 20 colégios a negociarem com um fornecedor, este certamente vai apresentar preços mais baixos comparativamente ao que faria se fosse um único colégio a solicitar o mesmo serviço ou uma compra. A negociação de forma corporativa aumenta a possibilidade de aumento do lucro.”

Por outro lado, estima em menos de 1% o contributo do sector educativo no PIB. “Ainda não tem grande significado no PIB, mas certamente somos um bom contribuinte fiscal.”

De alternativa a opção

António Pacavira destaca a mudança de paradigma em torno da importância do ensino particular para o País, tendo passado de alternativa a opção. “Nos anos 90, nós éramos apenas uma alternativa, porque o País vivia períodos de greve no ensino e então os colégios eram vistos como uma boa alternativa. Depois da década de 2000 o quadro inverteu-se, porque nos propusemos à mudança e passámos de alternativa a opção. Actualmente, os estabelecimentos particulares de ensino concorrem entre si, com as escolas estrangeiras existentes em Angola e, obviamente, com o próprio Estado.

Repare que nós crescemos todos os anos e temos mais de 600 mil alunos no País, sendo a principal praça a província de Luanda, que tem 875 colégios, e o País todo tem aproximadamente mil.”

Questionado sobre as possíveis vantagens e ou desvantagens das escolas internacionais no País para o mercado, o gestor destaca a credibilidade como uma das principais vantagens.

“O ensino em Angola tem prosperado e gradualmente tem vindo a conquistar uma certa credibilidade, ainda que não seja a desejada. Os nossos governantes dificilmente têm os filhos a estudar em escolas públicas dentro de Angola, mas já lá vai o tempo em que a moda era colocar os filhos a estudar fora de Angola, por exemplo na Namíbia, por vezes em escolas com menos condições de infra-estruturas do que as nossas, mas por uma questão de credibilidade e confiança.

Estes colégios passaram a ser impulsionadores da qualidade e da diferença na educação, e nós temos muitos que passaram a receber os alunos da elite em Angola, e isso trouxe alguma confiança ao sistema.” Também garante que muitos dos estabelecimentos do sistema nacional de ensino oferecem o mesmo nível de ensino das escolas internacionais. “Por uma questão de vaidade, muita gente ainda prefere ter os filhos a estudar na escola portuguesa, francesa, ou noutras.” Essa realidade revela que muitos promotores iniciam os respectivos projectos com o título de escola internacional, quando operam única e simplesmente dentro do regime angolano.

“Com o enriquecimento curricular, conseguem concorrer com as escolas estrangeiras, pois já temos colégios com boas referências, que têm um padrão internacional e são liderados por angolanos, com a maior parte de professores nacionais, que hoje são uma boa referência a nível do mercado.”
António Pacavira admite que têm trabalhado no sentido de deixar de ser necessário as instituições alpendurarem-se com o título de escolas internacionais para terem a devida aceitação. “A única forma de inverter este quadro é ganhar confiança e credibilidade, e isso faz-se com trabalho, porque não há nenhuma fórmula matemática ou física senão a capacitação e a superação dos profissionais. Se tivermos capital humano altamente qualificado, atingiremos bons resultados.

Se estimularmos a concorrência entre nós (porque, embora associados, somos concorrentes uns dos outros), conseguiremos superar-nos todos os anos e ganhar a confiança e a credibilidade cada vez maior dos encarregados de educação.”

Com o propósito de estimular esta concorrência, a Associação instituiu o Prémio Nacional do Ensino Particular, com várias categorias. “A primeira é o Prémio Tradição, que é atribuído aos colégios que mantêm a mesma gestão desde a sua fundação. No mínimo, durante nove anos a direcção tem que ser a mesma, porque há alguns que mudam de director constantemente, o que não dá segurança nem confiança, nem tão-pouco cria tradição. Há aqueles colégios que, por recomendação, várias gerações da mesma família passam por ele, e isso é óptimo!”

Inovação Curricular é outra das categorias do prémio, assim como Inovação Tecnológica, Inovação Cultural, Formação e Capacitação e Desporto. A Associação aposta ainda na formação dos profissionais, incluindo o intercâmbio internacional e a realização de congressos. “Levamos, em média, 50 a 60 directores a visitar outros colégios a nível internacional, para podermos observar as coisas por outro prisma. Se quisermos crescer, temos de saber como está a educação lá fora, e é por aí que temos estado a investir.”

O ensino particular em Angola surgiu em 1991. Na altura, existiam três instituições, das quais duas continuam em actividade: o Colégio Elisangela Filomena e o Colégio Céu de Base. Por sua vez, em 1996 surge a Associação Nacional do Ensino Particular (fundada pelo malogrado engenheiro Fernando Pessoa e um grupo de intelectuais). Durante três anos esteve inactiva por causa do desentendimento entre a liderança e os liderados. Em 2002, António Pacavira foi indicado para encabeçar uma lista que tinha Elisangela Bravo (proprietária da primeira escola privada do País) como vice-presidente. Venceram as eleições e Pacavira mantém-se ainda no cargo.

Por Vânia Andrade | Fotografia Njoi Fontes 

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