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O objecto reciclado, reutilizado ou integrado na arte

O potencial estético de objectos reutilizados é um assunto bem estabelecido na prática da arte. Hoje em dia, obras de arte que tenham como suporte objectos reciclados ou reutilizados para criar peças estéticas e interessantes de arte transformam literalmente o desperdício em valor.

No início do século XX, uma série de artistas de vanguarda viu um valor estético e intelectual na utilização do objecto. Cubistas e surrealistas introduziram os chamados objets trouvés (objectos encontrados), que, unidos de forma improvável e surpreendente, chamaram a atenção da comunidade.

Notoriamente, colocando o guiador de uma bicicleta em cima de uma sela, em 1943 Picasso criou uma imagem vigorosa da cabeça de um touro. Igualmente a introdução do objecto por Joan Miró, primeiramente numa óptica bidimensional (integrando o objecto na pintura através da collage) e mais tarde tridimensional (assemblage),apresentava um contexto ideológico pouco convencional, no qual o objecto era descontextualizado e com valor artístico per si.

Picasso e Miró “transfiguraram” o lixo e marcaram o momento com elementos de surpresa e humor em composições surrealistas. Na maioria da arte produzida no pós-guerra, os artistas utilizavam objectos descartados, deliberadamente desprovidos de beleza e determinado matéria-de-facto na sua apresentação.
O artista alemão Josef Beuys exibiu simplesmente o lixo enquanto conteúdo em caixas de vidro, onde, pela putrefacção, o lixo literalmente se auto-destruía. A arte é neste caso vista como transitória, tal como os materiais de que ela é feita.

Marcel Duchamp introduziu a ideia do readymade, onde qualquer, muitas vezes descartado, objecto ligeiramente modificado ou seleccionado e exibido como uma obra de arte era de facto: Arte. A partir de 1959, Gustav Metzger começou a escrever manifestos para o que ele chamou de “arte auto-destrutiva”, um género de manifesto anti-capitalista, anti-consumista, transgressivo, comprometido com a justiça social, política e ambiental.

A tendência começou a ganhar destaque em 1980, quando museus e galerias no mundo ocidental abriram as suas portas para tal inovação e criatividade. Nos últimos anos, muitos artistas pelo mundo começaram a expressar o seu apoio à reciclagem e sustentabilidade através de obras de arte, por vezes fundindo aspectos da sua cultura tradicional com temas contemporâneos.

Um pouco por todo o mundo, os chamados eco-artists tornam desperdício, que transformam e/ou reutilizam, em peças de arte ou de design,contribuindo assim para o movimento ecológico que toma cada vez mais lugar nas diferentes esferas da nossa vida. Os artistas encontram formas inovadoras e criativas para demonstrar a sua preocupação pelo meio ambiente e, desta O objecto reciclado, reutilizado forma, consciencializar e encorajar as populações a reutilizar, reciclar, reduzir, com o único intuito de tornar o futuro melhor.

A maior referência em África é o artista El Anatsui, nascido no Gana em 1944 e que reside actualmente na Nigéria. Anatsui transforma materiais simples em elaboradas esculturas, abordando temas como o consumismo e o colonialismo. As suas criações estão nas maiores colecções do mundo: Metropolitan Museum of New York, Centro Pompidou, em Paris, ou British Museum, em Londres. Com instalações avaliadas em centenas de milhares de dólares, por exemplo, a sua peça Another Plot,executada em 2007, foi leiloada em cerca de 1.180.000 dólares pela Leiloeira Christie’s.

Em Angola são vários os artistas que trabalham com objectos reciclados ou reutilizados. António Ole é considerado uma referência na utilização de objectos encontrados no seu trabalho. Primeiro, através do collage, integrando nas suas pinturas pequenos objectos encontrados ou pedaços da Natureza e depois nas suas famosas instalações. A série Tonwnship Wall( 2003 ), considerada uma das mais importantes obras do artista, combinava found objects de grande escala (portas e janelas, placas de zinco, restos de madeira) e cores brilhantes ao estilo pop-art, definindo o seu estilo artístico.

O artista Francisco Van, na sua mais recente exposição propunha esculturas de ferro reciclado e objectos vários; Jone Ferreira, artista que trabalha essencialmente com sucata (alumínio e ferro de carros velhos, bicicletas, motos, máquinas de todo o tipo), trabalha essencialmente com esculturas imponentes, algumas atingindo cerca de três metros de altura, representando figuras históricas e políticas de Angola.

O artista Cristiano Mangovo, famoso pelas suas esculturas de figuras humanas à sua semelhança, apela à consciência ambiental utilizando sucata de motos (conhecido por instalar faróis nas suas instalações), latas, colheres e plástico. Poderemos ainda citar alguns outros artistas que trabalham ou já trabalharam com este conceito: Egas, Paulo Amaral, Daniela Ribeiro, conhecida pelo uso do desperdício tecnológico. Marcos Kabenda, Binelde Hycran, muitos destes trabalhando em propostas de residência artística.

Ainda na exposição Re-encontros,apresentada no Instituto Camões no início de 2016, as artistas Patrícia Cardoso, Leda Baltazar, Imani da Silva, Erika Jâmece e Grácia Ferreira expuseram pinturas, instalações e levaram o conceito para o objecto decorativo.

Até Janeiro próximo, o artista Nelo Teixeira expõe Not Bok: Aglomeração no espaço e nas memórias na Galeria do Banco Económico, em Luanda. O artista trabalha com uma série de objectos encontrados pelas ruas da cidade, lixo urbano transformado para despertar a consciência socio-política, histórica e ambiental.

Existem cada vez mais coleccionadores interessados por esta proposta estética em Angola, muito embora predomine a preferência pela arte mais clássica, algumas peças de maior valor chegaram a ser vendidas por 30 mil e 60 mil dólares.

Mas falar de um verdadeiro mercado formal de arte é prematuro. Tem-se vindo a assistir, nos últimos anos, a um dinamismo entusiasmante no cenário cultural em Angola, desenvolvido por alguns centros culturais, produtores e pela vontade própria de artistas que, de uma forma ou de outra, aos poucos se profissionalizam. Há um longo caminho a percorrer no que diz respeito ao coleccionismo em Angola, mas o balanço é positivo e esperemos que assim continue.

Por Sónia Ribeiro 

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