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Elizabete Dias dos Santos…entre a Avicultura e a Pesca

Determinação, visão, capacidade de superação e humildade. Eis algumas das características que se destacaram em Elizabete Dias dos Santos durante a conversa/entrevista na qual a empresária revelou os objectivos da sua nova unidade empresarial, bem como a ambição para continuar a diversificar os negócios.

Por César Silveira | Fotografia Carlos Muyenga 

A conversa de pouco mais de uma hora decorreu na mais nova unidade empresarial gerida pelo grupo Diside, da qual Elizabete Dias dos Santos é administradora. Reinaugurada em Outubro de 2016, a Solmar é um dos projectos que pode servir para sustentar o adjectivo de visionária da empresária. Existe juridicamente desde 1992 e, até recentemente, resumia-se a uma câmara frigorífica com capacidade de 4 toneladas, e a sua actividade restringia-se à captura e congelamento de peixe.

Em 2012 iniciou-se um processo de reformulação de todo o projecto inicial para a sua sustentabilidade de foro operacional e financeiro, sob o comando/administração da Elizabete Dias dos Santos. A empresária e o grupo por si liderado, em coordenação com todos os intervenientes directos no processo, iniciaram por diagnosticar as grandes potencialidades do mercado.

A partir deste diagnóstico foi desenvolvido o projecto actual da unidade (Solmar), passando de uma unidade apenas de congelação para uma unidade industrial de processamento e congelação de peixe. Foi transformada numa unidade de processamento de peixe com capacidade para 15 toneladas por dia, estando dotada de equipamentos que permitem, além da congelação, a limpeza, o corte em filetes e postas, bem como a embalagem de peixe. Em termos de armazenamento tem uma capacidade de 500 toneladas das quais 200 estão reservadas para matéria-prima e as restantes para o peixe processado. “Aquando da minha entrada na administração constatei que era uma unidade com grandes potencialidades mas que não estava dimensionada. Era necessária a total reformulação do projecto inicial, tal como sempre foi o interesse do PCA. É desta forma que, e depois de conhecer outras unidades fora de fronteiras, avançámos para o projecto e hoje a Solmar é o que apresentamos: Um projecto completamente estruturado, em funcionamento e com grandes potencialidades, um projecto dimensionado à realidade e contexto angolano que tem em consideração as nossas reais especificidades e necessidades”.

O projecto foi decisive para a sua eleição de Empreendedora do Ano 2016 pelo painel mediado pela Deloitte, e agraciada com o Prémio Sirius. “Chorei muito no momento em que fui anunciada como vencedora! Deixem-me agradecer o grande profissionalismos da apresentadora da gala, que conseguiu criar condições, especiais/cruciais para que eu me recompusesse! Sem isso, teria sido impossível agradecer de um modo humanamente sentido”, recordou, acrescentando que o prémio devolveu a sua dignidade. “Porque poucos acreditavam em mim, 99% das pessoas esperavam pelo fracasso da minha administração. O prémio significa que o país está atento e que eu e a minha estrutura estamos a tomar os passos certos”, declara.

Uma afirmação que deixa entender que a empresária mantinha algumas dúvidas relativamente ao sucesso da sua gestão. “Nunca estamos certos se estamos no caminho certo e a tomar as melhores decisões, principalmente quando somos muito verticais na nossa forma de estar. Esta certeza só pode vir de quem está de fora a observar, como é o caso da Delloite e da própria organização dos prémios Sirius, dado tratarem-se de estruturas imparciais, credíveis e sérias… Daí ter sido uma grande surpresa e um momento de grande emoção para a minha pessoa. Uma postura contrária, no meu entendimento demonstraria alguma falta de humildade e desrespeito para com os outros potenciais merecedores. Quando achamos que já fizemos tudo, alguma coisa está errada. Ou somos nós que não estamos preparados para os desafios, ou os desafios não são, afinal, tão grandes desafios assim e sim dados adquiridos. Com o prémio, tenho a noção que não representamos uma mera produção, mas sim uma produção com responsabilidade acrescida para o consumidor. A atribuição do prémio, aumenta as nossas responsabilidades enquanto produtores e grandes parceiros do programa Feito em Angola. O mercado espera muito de nós, e não podemos defraudar os objectivos dos nossos consumidores”.

Elizabete Dias dos Santos iniciou o seu percurso empresarial alguns anos antes de receber o desafio de liderar a Fazenda A Pérola do Kikuxi, mas foi este, segundo disse, que a tornou “empresária de verdade”.

O Pólo Industrial A Pérola do Kikuxi hoje integra as empresas Classiovo (1 milhão de ovos Kikovo por dia, uma classificadora de 60 mil ovos por hora que, em breve, passará a classificar 120 mil ovos por hora), Nutrimix (produção de 20 toneladas de ração por hora), Avikuxi ( abate actual de 2 mil e 500 frangos por hora, e que em breve ascenderá a 7 mil frangos por hora). Tal como a Solmar, o polo também precisou de um relançamento e modernização a partir praticamente do zero. “Costumo dizer que recebi monstros adormecidos”, enfatiza.

A empresária acredita que a Solmar tornar-se-á tão importante no panorama produtivo nacional quanto o é a Pérola do Kikuxi, (no sector dos ovos, ração e frangos). ” Hoje estas unidades estão dentro dos objectivos reais do mentor do grupo! Unidades industriais sérias e ao serviço dos pequenos produtores e consumidores.)”

Mas, mais do que isso, durante a conversa revela a vontade de apostar em novos negócios que consolidarão o desenvolvimento do processo industrial em fileira, ou seja, em projectos âncora de apoio aos pequenos produtores. “Vêm aí novos projectos: a inauguração de um centro de distribuição, a implementação de uma unidade de fabrico de cartões, lançamento de um centro tecnológico (completamente pensado e desenvolvido e por mim… E o resto está nos segredos dos Deuses! Operacionalmente, o nosso grupo implementa os projectos num período que vai dos 6 meses até um ano, desde que reunidos todos os ingredientes dos negócios! Quando está em causa a implementação só os prazos são estes. Tenho por hábito dizer que eu e a minha equipa somos rápidos.” Nesta conversa a empresária mostrou estar preocupada não apenas com as unidades do grupo a que pertence mas com o processo de industrialização do país.

Em off disse que antes de definir o que queria fazer da Solmar visitou algumas unidades semelhantes que serviram de inspiração. Quais foram?

A realidade espanhola é um mundo à parte, e grande fonte de inspiração e Portugal não fica atrás no quesito tecnológico. Porém, nem tudo que foi feito a nível internacional se adapta ao nosso país. Por isso, fomos à busca de várias realidades e fizemos um projecto dimensionado à realidade angolana. Estamos a falar de um período de quatro anos de pesquisas. Depois deste período, eu sabia exactamente o que queria e que rumo o grupo deveria tomar. Costumo dizer que não existem livros que ensinem sobre a nossa realidade empresarial e económica. Só estando cá é que vamos conhecendo a especificidade territorial, a cultura e outras particularidades do mercado. A Solmar é uma unidade adaptada ao contexto de angola”.

E quais foram as grandes particularidades do mercado que tiveram de considerar?
A grande quota de informalização do nosso mercado, que altera regras diariamente. São regras tão específicas que somos obrigados a respeitar e com elas conseguir lidar diariamente. Por outro lado, por exemplo, temos industriais vocacionadas para a pesca mas não temos uma doca. O segredo do sucesso de uma unidade destas é o preço da matéria-prima a qualidade e a calibragem. A ausência de observância destes parâmetros pode comprometer toda uma operação. Acresce a dificuldade de contratação de mão-de-obra especializada, a qual é muito escassa, assim como a hercúlea tarefa de aceder a divisas. Porém, tudo que nos poderia desanimar, mais nos estimula para desbravar áreas e continuar diariamente a busca de soluções.

Estes problemas existem e continuam. Como pensam solucionar?
Trazendo a debate, entre empresários e com os ministérios que tutelam as nossas actividades. Potenciando a entrada de novos investidores, não para todos fazerem a mesma coisa, mas sim para o desenvolvimento em fileira (grupos especializados). Só deste modo, cada um enfocado no que sabe e consegue fazer, se consegue fortalecer o tecido empresarial do País. Temos que alterar a cultura do individualismo! Esta postura está a empurrar-nos para o estrangulamento do tecido empresarial. O País já viveu períodos bem mais simpáticos! O empresariado nacional é um tecido muito jovem, é natural que se tenham cometido, no passado, alguns erros, que não ajudam muito no presente. Mas, a crise económica está a reeducar-nos para a verdadeira filosofia empresarial. As políticas do Executivo encorajadoras da diversificação da economia sempre existiram, mas a busca desenfreada do lucro só pelo lucro trouxe-nos um empresariado nacional enfraquecido quando colocado diante de um novo ciclo, ou perante alterações provocadas por momentos de menor disponibilidade financeira.
Quando assumi a administração deste grupo sempre disse que não acreditava na riqueza sem estrutura, e quem tem uma estrutura tem um preço a pagar e muito alto. Eu acredito na especialização dos grupos, no desenvolvimento das indústrias em fileira. Só desta forma, cada um enfocado no que sabe fazer, se consegue ter um tecido empresarial forte.

Mas, a continuar esta situação da especulação dos preços por parte dos armadores, a empresa certamente irá investir forte na captura também?
Infelizmente sim. A nossa estratégia foi sempre no sentido de haver empresas mães que consigam fazer o desenvolvimento em fileira. Esta empresa deveria ser a unidade que processa e apoia a pesca artesanal e industrial. Deveria ser e vai ser, acredito, aquela que cria a identidade do que é feito em Angola em termos de pescado. Esta unidade terá que ser aquela que permitirá auxiliar nos balanços mensais do que é processado e capturado no País. Que permite chegar rapidamente ao Executivo e informar que quota de mercado a produção nacional consegue cobrir e quanto podemos importar e exportar. Se a única forma de sobrevivência da nossa unidade passar pela captura por meios próprios, teremos de ir buscar soluções. Mas, até lá, vamos continuar a pensar que sendo todos angolanos, a responsabilidade tem que ser partilhada. Preferimos potenciar as empresas que se dediquem à captura de pescado dentro dos padrões de qualidade e de ética empresarial que achamos necessários.

Os preços praticados pelos fornecedores não serão também forçados pelos constrangimentos da actividade da captura?
As margens são razoáveis, não há necessidade de estrangularmos a economia nacional, ou de sacrificarmos o consumidor final. O País passou por vários períodos, uns mais simpáticos, outros menos. Quando vamos falar da actividade empresarial em Angola, esta é muito embrionária ainda. A era do petróleo permitiu-nos as mais variadas irresponsabilidades enquanto empresários. As políticas estavam criadas mas a busca desenfreada pelo lucro fez com que, hoje, nos deparássemos com uma crise económica grave e sem estrutura que apoie o Executivo na busca de soluções.

Saiba mais, na edição de Março da Revista Rumo. 

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