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Há cinco anos BIC comprava o BPN

Naquele que pode ser considerado um dos marcos da internacionalização do investimento bancário angolano, o Banco BIC Português comprava, em Março de 2012, o português BPN num negócio avaliado em cerca de 40 milhões de euros. Nas linhas que se seguem, os bastidores do negócio e o impacto que o mesmo teve na instituição criada em 2008. Entre outros assuntos, saiba quem foi o accionista que por ele o negócio não avançaria.

Por César Silveira 

Passados cinco anos, o balanço da compra do BPN pelo Banco BIC poderia ser apenas mais um balanço, sobretudo porque no próximo ano se comemorará 10 anos de existência do Banco BIC português.

Fazendo recurso ao calendário matrimonial, estará a comemorar as “bodas de estanho”. Seria uma boa ocasião para fazer um balanço de forma profunda do referido negócio, pois enquadra-se na primeira década de actividade da instituição.

Entretanto, existem razões para que o balanço dos cinco anos de compra do BPN mereça atenção, uma vez que este período de tempo foi fixado como referência para algumas das cláusulas contratuais do negócio.

Por exemplo, antes deste período [cinco anos], o Banco BIC estava impedido de investir em participações ou compras de activos. Por outro lado, ficou o compromisso de o Estado Português beneficiar de 20% de qualquer valor acima de 60 milhões de euros, caso esse viesse a ser o valor dos resultados positivos acumulados do Banco BIC português nesse mesmo período.

Numa conversa que serviu tanto para fazer o balanço do investimento como para recordar alguns dos momentos de bastidores que antecederam o negócio, Fernando Teles, um dos accionistas do Banco BIC, adiantou que os resultados acumulados estão muito abaixo de 60 milhões de euros, pelo que o Estado Português não beneficiará da referida percentagem.

“Quando adquirimos o banco, tínhamos em depósitos 1,7 mil milhões de euros e em créditos 2,1 mil milhões, que, somando ao crédito que já tínhamos no BIC, cerca de 300 milhões, dava um total de 2,4 mil milhões de euros. Desde a aquisição do BPN até hoje crescemos significativamente. Somos um banco com um volume de crédito de cerca de 4,2 mil milhões de euros e em depósitos estamos com cerca de 5,1 mil milhões. Em termos de activos, temos um balanço com cerca de 6,5 mil milhões de euros. Contudo, devido à actividade económica em Portugal, marcada pela crise, a banca manteve-se com pouca rentabilidade. Actualmente temos um banco com fundos próprios de cerca de 480 milhões de euros, mas, em termos de rentabilidade, tivemos em 2015 cerca de 15 milhões de lucro líquido. O resultado de 2016 não será positivo, pois o valor dos fundos próprios irá praticamente manter-se por via do rendimento integral, e, não obstante, em termos de lucros e pagamento de impostos ao Estado, não iremos ter condições para o fazer.”

A actividade de 2016 foi afectada pela aplicação que o banco fez “em obrigações da Portugal Telecom, que, com a compra pela Oi da Portugal Telecom, esta aplicação ficou na Oi e o banco foi obrigado a criar uma provisão de 38 milhões de euros para fazer face a um eventual incumprimento por parte da empresa que comprou a Portugal Telecom”, explicou o banqueiro.

No global, Fernando Teles considera que a compra do BPN “não foi um bom investimento”, mas sim “um investimento razoável, normal”.

“Há quem diga que nós fizemos um negócio muito bom. Pessoalmente, passados cinco anos, acho que foi razoável para o Banco BIC, mas não concordamos que tenha sido muito bom. Ainda não obtivemos os resultados esperados. O BIC, quando comprou o BPN, já tinha lucros de entre 10 e 15 milhões de euros. Depois da compra, os nossos lucros ainda são pouco significativos, e já nos obrigaram a realizar dois aumentos de capitais. É verdade que estes aumentos são dinheiro que se encontra nos fundos próprios do banco, mas fomos obrigados a fazê-lo para atingir níveis de solvabilidade bastante acima dos padrões regulamentares, ascendendo a cerca de 115 milhões de euros depois da compra do BPN. Poderádizer-me que as entradas de capital foram consequência do aumento da dimensão do banco e não por prejuízo. É verdade, mas também os lucros que tivemos com a aquisição não foram tão significativos que pudéssemos tirar dinheiro deles para fazer o aumento de capital. Por isso, como disse, o negócio não foi bom, foi razoável.”

Mas trata-se de um investimento que o banqueiro voltaria a fazer. “Porque isso permitiu-nos ter dimensão num país europeu. A conjuntura em Portugal é difícil e a crise não passou totalmente, mas a Europa é o Velho Continente e irá manter a respeitabilidade e a força, e, para nós, é útil estar na Europa e ter um banco de raiz europeia com certa dimensão.”

Destacou também a importância que o crescimento do Banco BIC português tem tido nos negócios do Banco BIC Angola, com realce para a transferência de divisas.

“Permitiu-nos [a compra do BPN] aceder ao mercado europeu, o que é positivo, porque um banco angolano estar com um banco de média dimensão na Europa é importante. Não estou a imaginar o que seria do BIC, com todas as dificuldades que há em termos de correspondentes, se não participássemos no BIC português.
É sempre um investimento feito num país europeu que complementa a nossa actividade em Angola. Permite-nos ajudar o Banco BIC Angola a chegar ao mercado europeu e às empresas portuguesas que actuam em Angola.

Permite-nos chegar aos empresários angolanos que têm as suas centrais de compras em Portugal. A minha perspectiva foi sempre a de ter um banco em Portugal, porque sempre tive consciência de que os bancos que estavam em Angola de raiz europeia – eram três ou quatro – tinham mais força que nós, não porque trabalhassem melhor que nós em Angola, mas porque tinham no exterior um banco que os apoiava.”

Por outro lado, Fernando Teles acredita em anos melhores para a actividade bancária, pois “Portugal já bateu no fundo, a crise já remonta a quase nove anos e não se pode manter por toda a vida. Haverá um momento em que os bancos estarão recuperados e com rentabilidade”.

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