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Contexto é tudo

Não querer estar ao lado de Trump pode ser apenas uma questão de cobardia momentânea.

Por Edson Athayde 

Ainda vamos ver muitas marcas a virar a casaca. Tudo é contexto. Contexto é tudo. Na comunicação, na vida, no mundo. Nos anos 30, Hugo Boss assinou um vantajoso contrato para desenhar e costurar uniformes nazis. Ferdinand Porsche criou, a pedido de Hitler, o Carocha. Reza a lenda que foi o próprio Adolf a baptizar o carro de “besouro”.

A Siemens usou trabalhadores escravos para construir as câmaras de gás que iriam matá-los durante o Holocausto.

A simpática Fanta foi criada pela Coca-Cola para abastecer de refrigerante as tropas alemãs durante a guerra.

A lista de marcas com um passado de associações ou actos condenáveis é imensa, infinita. Em boa verdade, a História não iliba quase ninguém.

A Igreja Católica tem o estigma da Inquisição. Portugal e Inglaterra lucraram muito com o tráfico de escravos. E assim por diante.

No tempo em que essas tristes coisas aconteceram não havia uma condenação unânime sobre elas. Os homens e as mulheres daquelas épocas acharam estar a fazer coisas certas ou, no mínimo, defensáveis. Qualquer um deles poderia hoje alegar: “O contexto era outro.”

O nosso contexto é o de hoje. Mas algumas coisas aprendemos com os erros de outros tempos. Daí a resistência de muitas marcas, artistas, empresários em aparecer ao lado de Trump.

Quando Spielberg nos apresentou a sua obra prima A Lista de Schindler, involuntariamente apontou uma direcção muito clara aos CEO e directores de marketing contemporâneos: no futuro, como vão eles querer ser retratados no cinema? Como os que ajudaram em carnificinas, os que se omitiram por ganância ou os que se opuseram ao diabo em forma de gente? Schindler é também uma marca multinacional de elevadores. Cada vez que entro num cubículo suspenso por cabos no ar sinto-me aliviado quando leio o seu nome. Será que seria a mesma coisa se eu soubesse que o Schindler original teria torturado e matado judeus?

Não querer estar ao lado de Trump pode ser apenas uma questão de cobardia momentânea. Ainda vamos ver muitas marcas a virar a casaca. Deixa só o ditador laranja ganhar um pouco mais de espaço e de poder concreto.

Cabe-nos, enquanto cidadãos e consumidores, estarmos atentos. Com a certeza de que não há desculpas. Nem tudo é contexto. Contexto não é tudo. Ou, como diria o meu tio Olavo: “O diabo é muito optimista quando pensa que pode piorar as pessoas.”

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