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“Tenho de ter um espírito aberto para aprender sozinho e para aprender com os outros”

Gaël Bellet-Brissaud é empresário há duas décadas. Um self-made man que há 12 anos se mudou para Luanda, onde actualmente vive e trabalha.

Por Nilza Rodrigues | Fotografia Carlos Muyenga 

À frente do Grupo Angolift, com sete empresas e 50 trabalhadores que abarcam desde o sector petrolífero à restauração, Gael tem uma particularidade sui generis: paixão pela fotografia. Por isso no dia 30 de Março vai expor uma série de fotografias que reflectem o seu olhar positivo e a redescoberta do belo em Luanda. Por muitos tantas vezes esquecido. E a favor da Associação das Crianças de Luanda. Porque um empresário também tem responsabilidades sociais.

Qual foi o seu primeiro negócio em Angola?

Abri a primeira fábrica de cabos de aço do País para fornecer o sector petrolífero. Apresentei o processo à ANIP, no valor total de 1,5 milhões de dólares, em 2005 e foi concluído em 2006. Cheguei a Luanda com a minha família para iniciar actividade a 30 de Março de 2006. Começámos com três funcionários e há dois anos chegámos aos 30 colaboradores. Agora são apenas 15, por causa da crise a actividade reduziu consideravelmente.

À parte a actual conjuntura de crise, na altura e em boa fase o negócio cresceu?

Sim, o negócio estava a andar bem e comecei a consolidar a ideia de criar um grupo angolano com várias empresas de diferentes áreas: petrolífera, formação profissional, recrutamento e colocação, aeronáutica, especialização em helicópteros, hotelaria e restauração, transitário, importação e exportação.

Quando chegou a Luanda, quais foram as suas primeiras impressões?

Cheguei numa boa época, havia muitas perspectivas e negócios. Há 12 anos era um País diferente, a reconstrução estava na fase de arranque. Eu vi o desenvolvimento. Os meus olhos testemunharam o trabalho bem feito.

Foram essas circunstâncias que o levaram a ficar?

Sim, mas penso que para viver e trabalhar aqui depende da personalidade da pessoa. As coisas tendem a ficar difíceis, mas eu não tenho medo da dificuldade.
O País precisava da experiência e da capacidade estrangeiras na altura, e eu cheguei aqui com um espírito de confiança para fazer uma fusão com os angolanos. Trabalharmos juntos.

E como avalia a evolução da relação profissional com os angolanos?

A evolução é espectacular. Costumo compará-la à evolução da cidade de Luanda. É verdade que de início a mão-de-obra angolana necessitava de formação, mas isso hoje já não acontece e refiro-me concretamente ao meu grupo, pois 98% dos trabalhadores são angolanos.

Isso mostra que em 12 anos houve de facto evolução, a formação profissional e a aceitação do angolano permitiu chegar a um bom resultado.

Vive em Luanda com a sua família há 12 anos, montou o seu negócio… já se sente um pouco angolano?

Só falta o bilhete de identidade.

Não sendo este um país fácil, o que o torna já um pouco angolano?

Eu vivi 25 anos no Gabão e lá já tinha um espírito africano, ainda que francófono. Quando cheguei aqui, encontrei uma África diferente. Angola é um país duro, difícil, mas é bom porque tenho uma forma de ser e de estar do tipo militar, e, quanto mais difícil e duro, para mim melhor. Penso que é por isso que consigo adaptar-me bem à realidade e mentalidade do País. Tenho uma personalidade muito forte e penso que esse espírito angolano já está em mim.

Gosta de desafios?

Sim.

Qual o seu limite?

Não tenho limites.

O que lhe falta ainda fazer em Angola?

Não falta muita coisa… Creio que o povo angolano tem um espírito muito vivo, patriótico. Por exemplo, existe esta questão do petróleo e agora o objectivo é a diversificação da economia. Os angolanos já estão a dar resposta, há muito investimento nas fazendas para fazer agricultura.
Há investimento que vem do estrangeiro, mas também já há muitos angolanos a investirem no seu País.

O que falta para termos um melhor ambiente de negócios?

Penso que ainda falta resolver a questão do transporte. O País precisa de mais linhas férreas e comboios de alta velocidade, penso que isso no futuro será imperativo. Como também penso ser necessário proteger a zona marítima. A fronteira marítima faz parte do território e actualmente não tem controlo. Ainda não se pensa nesse espaço como uma fronteira, mas é. Tem que se proteger mais e evitar, por exemplo, que venham pescar, roubem o peixe aqui e depois venham vender o mesmo peixe como se fosse importado.

A protecção da Natureza é essencial, mas convém para tal avaliar o impacto de algumas medidas. A província do Namibe, por exemplo, tem um espaço desértico plano para instalar painéis solares e produzir energia para fornecimento do País. Poderia ser uma boa alternativa à energia hidráulica.
Com essas ideias parece que pretende ainda expandir os seus negócios, não?

Não sei, vamos ver. De momento estamos em crise…

Está a ser muito afectado?

Sim. Na verdade, não fosse o facto de ter empresas em áreas diferentes, nestas circunstâncias em que o petróleo está em baixa o panorama seria bem pior. Veja que em 12 anos já perdi quase 70% das vendas no negócio da área petrolífera.

Esta situação requer mudança de estratégia?

Não tenho pressa, é preciso esperar que a crise passe, porque vai passar, e o petróleo não vai ficar a esse preço por muito tempo, vai subir novamente. É um ciclo… Um ciclo vicioso, baixa o preço, pensa-se em diversificação, sobe o preço do petróleo, esquece-se a diversificação…

Sim. Somos seres humanos e nesse aspecto somos todos iguais. Quando há sol, não pensamos na chuva e não nos lembramos de comprar um guarda-chuva. O bom aqui é que o povo angolano reage rapidamente. No momento em que a crise chegou, o Governo organizou–se para redireccionar os investimentos para a agricultura. Já há muitas fazendas a produzir legumes, frutas… ainda não respondem à necessidade do País, mas é um bom começo.

Quando é que começou a desenvolver este interesse pela expressão artística?

É uma longa história. Como não sou licenciado, creio que tenho a obrigação de ter um espírito aberto para aprender sozinho e aprender com os outros. Penso que um self-made man é um artista, precisa de psicologia, inteligência, respeito e uma visão de futuro, mas também de passado, para evitar os erros já cometidos.

O self-made man, o homem de negócios, já existe, a questão é como passar essa linha. Consegui-o graças à minha mulher, que gosta de arte e me iniciou nesta área.

Ela ensinou-me e contribuiu para a construção do meu espírito cultural artístico.

O que o leva a retirar-se dos seus afazeres (imagino que sejam muitos), pegar na máquina e fotografar por aí?

Há muito tempo que gosto de fotografia e de fotografar. De certa forma, sinto que também evoluí com a cidade e aqui encontrei um espírito artístico superior ao de outros países mesmo aqui ao lado. Angola tem hoje uma forte expressão artística, que existe só pelo prazer de exprimir sensações. Gosto de apreciar a street art, que tem cada vez mais espaço. E há pormenores que nem toda a gente repara, pois na verdade as pessoas, sejam angolanas ou estrangeiras, só falam mal da cidade: está suja, tem poeira, engarrafamentos, tem lixo… Por vezes, sinto-me mais angolano do que os próprios, porque não me fico pelo que está mal. Há estradas, melhores condições, ainda não está tudo bom e perfeito, mas eu prefiro ter um olhar positivo, e essa é a minha primeira força: ser positivo, e tento convencer os outros a olharem da mesma forma. Decidi fotografar a street arte exprimir essa beleza porque, quando olhamos de forma positiva, encontramos beleza.

Esse olhar positivo está mais ausente entre os angolanos ou entre os estrangeiros?

Angolanos… Eu tenho poucos amigos estrangeiros, porque não têm o mesmo espírito que eu. 90% dos meus amigos são angolanos e esta exposição é para eles. É uma forma de exprimir a minha angolanidade.

E a outra parte da exposição, sobre Os Invisíveis, não é assim tão positiva, já que retrata os loucos que deambulam pela cidade…

Desde que estive no Gabão apercebi-me da quantidade destes “invisíveis”. Não sei porquê, mas à minha volta havia muitos; eles acabam por fazer parte da nossa vida, mas são invisíveis. No Gabão, aproximava-me dessas pessoas e falava com elas. Eu não tenho medo, mas sei que muita gente tem medo deles.

Observo, muito, a forma como se apresentam, o que vestem e porque o fazem de determinada forma… A minha intenção é tentar perceber o que se passa nas suas cabeças, entendendo que muitas vezes a forma como se apresentam reflecte o seu mundo interior.

Chama-os invisíveis, mas não lhe são indiferentes…

A loucura pode afectar-nos a todos. Hoje estamos bem e amanhã podemos ficar loucos sem saber porquê.

Um problema, um casamento arruinado… existem muitos factores. Há uma fronteira muito estreita entre o tal estado normal e o da loucura.

As pessoas vêem esses “invisíveis” pelas ruas e fingem que não os vêem, mas, cuidado, amanhã podemos ser nós a transpor essa fronteira. O ser humano é uma máquina complexa, há fronteiras tão ténues, diferentes níveis de loucura e, na verdade, tal como Freud dizia: todos são loucos.

Há pessoas loucas que não são perigosas. Já os que são tidos como normais têm alturas em que ficam loucos e tornam-se muito perigosos.

Ao fotografar estes “invisíveis” qual a sua mensagem?

Que o invisível está ao nosso lado e precisa também de ser respeitado, porque eles respeitam-nos e, por norma, não atacam uma pessoa por nada. Há indivíduos que passam e fogem com medo deles. São seres humanos como nós e não nos podemos esquecer de que a fronteira é muita estreita, todos ficamos loucos, ainda que em níveis diferentes. Quero abrir uma porta para a reflexão e discussão filosófica sobre esse estado de loucura. E, de alguma forma, fazer com que os “invisíveis” se tornem visíveis.

 

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