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Caló Pascoal: “Os bancos têm que abrir mais crédito às produtoras”

O músico e produtor Caló Pascoal fala dos desafios da actividade musical que considera rentável apesar das “batalhas”.

Por Vânia Andrade

Qual a sua avaliação sobre o actual mercado da música angolana?

No que diz respeito à qualidade ou ao mercado em si, a música está bem, pois tem vindo a melhorar imenso. São os ganhos da paz, porque depois de 2002 as coisas dispararam. Implementou-se a livre circulação de pessoas e bens e isso fez com que a nossa música chegasse mais rapidamente a todo o País. Antes, a música tocava durante três a seis meses em Luanda e só depois chegava às outras províncias, mas nos dias que correm é ouvida em todo o País ao mesmo tempo. Isto tem impacto nas vendas. Em 2012 criou-se o primeiro local de lançamento e venda de discos, a portaria da Rádio Nacional de Angola.
Sinto-me um felizardo por ser um dos cantores que participaram do primeiro disco a ser vendido, Kialumingo, que foi um projecto com vários artistas. Depois seguiu-se o Nanutu, o Kelly Silva, entre outros, e isso fez com que o consumidor tivesse acesso directo ao cantor e à obra.  A partir daí, o próprio artista começou a ganhar dinheiro e a comercialização de CD passou a ser rentável, porque num só dia conseguiam vender-se 500, 600, 1000 CD, até uma altura em que se chegaram a comercializar 10 mil cópias, ou até mais.

Nessa altura, quanto custava lançar um disco no mercado?

No que diz respeito aos gastos, tudo é muito relativo. Depende muito dos artistas que se querem introduzir no trabalho. Cada produtor cobra o seu valor. Eu, enquanto CEO da Quebra-Galho, que é a minha produtora, enquanto produtor musical, cobro determinado valor, mas há outros produtores que têm valores diferentes.

Quanto custou, por exemplo, o seu primeiro trabalho discográfico?

O meu primeiro disco, por ter sido eu a produzi-lo, não contabilizei os gastos, não agi como devia, como um verdadeiro gestor. Não contabilizei a minha força de trabalho, o capital investido, etc.

Apenas contabilizei o valor do patrocinador, que pagou a reprodução do CD. Na altura fizemos 1500 cópias e penso que ficaram em cerca de três mil dólares, mas isso sem contar com a produção, que foi minha. Tive alguns gastos com músicos que participaram no disco, mas por falta de experiência não os contabilizei. Naquela altura, o meu maior objectivo era aparecer e começar a ser conhecido. Em 2005, embora também tenha sido o produtor do meu segundo álbum, as coisas passaram-se de modo diferente, pois consegui acompanhar os gastos do editor, que foi a Max Music, uma editora portuguesa, em parceria com a Angola Music, que era uma produtora angolana. Penso que, no álbum Santa Mariazinha,acabámos por gastar mais de 20 mil dólares, sem contar com o meu trabalho de produção.

Já no álbum Eu e Elas, que foi um projecto meu e do Afonso Quintas, tivemos uma despesa cerca de 23 mil dólares. No Sagrada Esperança contabilizei tudo, fiz contas a cada produção que fiz, porque havia um parceiro que entrou com parte do dinheiro e era preciso termos noção dos lucros para podermos fazer a sua divisão. Ficou em mais de 70 mil dólares. Fui a Cabo Verde, a Paris e Portugal, para dar mais publicidade ao álbum. Convidei o Johnny Ramos, a Grace Évora, o Adalberto Lopes, e tive muitos convidados.

Tiveram retorno do valor investido?

Sim. Neste último álbum investimos qualquer coisa como 123 mil dólares e teremos tido um lucro de cerca de 53 mil dólares, mas foi numa altura em que o nível de vendas era satisfatório. O que para nós foi um bom número, porque estávamos a pensar numa margem de lucro de dois ou três mil dólares. Umano depois produzi o álbum Amor Veneno, da Gisela Silva, em que fui o patrocinador, e foi feita uma parceria com a LS Mãe, que está vinculada ao Dr. Eugénio Neto, e também consegui que fosse rentável. Portanto, com todos estes factores, todos os outros artistas, todas as outras produtoras a funcionarem, a nossa música disparou. As vendas dispararam e a partir de 2005 já era possível os artistas terem lucro com a venda dos próprios CD, o que era praticamente impossível antes dessa data.

O aumento de investidores e de produtoras nacionais influenciou de alguma forma a melhoria da qualidade musical?

Influenciou imenso. Porque com os lucros os artistas passaram a implementar uma maior qualidade na sua sonoridade, passando a ir gravar aos Estados Unidos, à Holanda, a França. A nossa música soava muito bem, e quando a música soa bem tem um retorno e é visível. Não é preciso ostentação, mas o mínimo que se ganha permite a um artista posicionar-se socialmente bem.

Qual a sua opinião sobre a existência, ou não, de uma indústria da música no País?

Indústria, propriamente dita, não existe. Estamos a falar de Angola, que é um País jovem, com apenas 15 anos de paz, onde ainda não foi incrementada esta indústria. Não nos podemos comparar a outras realidades e modelos internacionais, porque não tiveram tantos anos de colonização como nós e são independentes há mais tempo.Passámos por uma guerra, é bom não esquecer, mas apesar disso, no que diz respeito à música, a indústria desenvolveu-se muito.

Sente que existe vontade na criação de uma verdadeira indústria?

Por parte dos fazedores de arte, existe. Há uns anos estávamos a precisar de uma fábrica de CD, que nos ajudaria nesta fase do ciclo económico que estamos a viver. Uma fábrica de CD faria toda a diferença. Sou de opinião que o Estado deveria intervir, apesar de o nosso sistema favorecer e permitir a iniciativa privada. No que diz respeito à fábrica de discos, penso que deveria haver uma parceria público-privada. Ainda se vendem CD, as pessoas têm interesse em comprá-los, portanto seria um bom investimento termos cá essa tal fábrica.

Desde 2015 que se nota uma certa redução no lançamento e comercialização de novas obras discográficas. A crise economia tem sido a grande responsável por esta ruptura no mercado musical ou há outra razão?

Praticamente tudo isso resulta da crise, pois há falta de divisas. Para se transferirem 1000 ou 1500 euros para fora demoramos dois ou três meses. Se quisermos fazer uma reprodução mecânica de discos, que pode custar cerca de oito mil euros para somente três mil cópias, quanto tempo acha que demorará transferir este valor?
Isso sem contar com as taxas aduaneiras e os documentos comprovativos. Mas somos aventureiros e vamos tentando. Brevemente vou editar o disco da Tamara Nzaji, mas sem pensar em lucro, porque o álbum dela tem de sair pois as pessoas gostam da sua música e já estão a pedi-lo, por exemplo, na rádio.

Em quanto está avaliado o CD da Tamara Nzaji?

O CD tem várias etapas. A produção das músicas está avaliada em quatro milhões de kwanzas. A capa será de aproximadamente 500 mil kwanzas e as cópias também têm o seu preço, mas ainda não está tudo contabilizado.

Tornou-se produtor musical por paixão ou por ser um negócio rentável?

Por pura paixão! Até me assustei quando me apercebi de que estava a ganhar dinheiro. Fi-lo por prazer, porque quis fazer as minhas próprias músicas.
Lembro-me de que há uns anos fui ao estúdio do Eduardo Paim e a outros para gravar as minhas músicas, mas como já tinha alguma habilidade para o fazer, as pessoas foram gostando das minhas ideias e fui cultivando.

Qual a percentagem que um produtor ganha ao produzir um determinado cantor ou ao lançar um disco?

Depende da produtora e da arte. Nós, Quebra-Galho, estamos repartidos. Temos a agência, que faz o agenciamento do artista, existe a produtora, que se encarrega de orientar quem vai produzir, quem vai gravar, e existe o produtor.

A produtora é uma empresa e o produtor, que pode ser o Caló Pascoal, ou o Dabex, que é cabo-verdiano, ou o Dj Mania, é a pessoa que nós contratamos para tocar as músicas dos nossos artistas.

O que é exactamente a função de um produtor?

O produtor é a pessoa responsável pela concepção da música, que acompanha a música até ao master, até estar pronta para entregar ao cantor. Há uns anos o produtor musical não tinha que ser necessariamente alguém que tocasse, mas actualmente um bom produtor tem que tocar algum instrumento, para poder apreciar melhor as coisas e para saber de facto o que está a fazer. Eu toco teclado e instrumentos de percussão, toco tonga, dicanza. O trabalho do produtor resume-se a o artista vir com uma canção, por exemplo, dá-la ao produtor para fazer os arranjos, e então se ele não souber fazer arranjos as coisas tornamse difíceis. Por isso é que digo que os produtores devem saber tocar alguma coisa, porque quem toca um instrumento facilmente faz arranjos, e de preferência teclado ou guitarra.

Depois de passar pelo processo que acabou de referir, o que é que falta para tudo isto ser feito cá em Angola?

Não falta nada, já é tudo cá feito, pois hoje temos bons técnicos. No entanto, encontramos melhores técnicos fora do País. É como tudo: nós temos uma grande selecção de basquetebol mas lá fora temos selecções maiores e melhores. Chegará a altura em que teremos técnicos a fazer misturas muito melhores do que as que são feitas em França ou na Holanda. Hoje, por exemplo, já temos grandes produtores, mas há uns anos não havia ninguém que fosse capaz de fazer uma kizomba melhor do que na Holanda. Já há muita coisa boa a ser feita cá. Um exemplo vivo é o meu álbum Eu e Elas, que foi todo feito cá, mas peca nalguns aspectos, que depois fui suprindo e corrigindo.

Qual a percentagem que a produtora encaixa com a produção e o lançamento de um determinado disco?

Vamos buscar o retorno do nosso capital a várias áreas, ao CDe ao agenciamento. Não aceito fazer um disco de alguém que não seja agenciado por mim, porque actualmente a empresa ganha mais com o agenciamento do que com o disco propriamente dito, porque aquela fase de ganhar o dobro na venda dos discos já passou. A venda de um CD, hoje, fica em mil kwanzas, mas por vezes há quem o tente comercializar a 1500, mas 1500 kwanzas não são 10 dólares, que são 2500 kwanzas ao câmbio do banco. Portanto, até chegar a Angola cada disco pode custar sete dólares.

Nós vendíamos ao preço equivalente a 10 dólares na altura do câmbio alto.

Mas com a taxa de câmbio actual, mil kwanzas são quatro a cinco dólares, e para quem gasta sete dólares com o disco só há perdas. Por isso apostamos no agenciamento. Para os meus artistas de agenciamento cobramos 30% por cada espectáculo. Trabalhamos para que o artista faça o maior número de espectáculos possível. Por isso é importante fazer músicas que sejam ouvidas durante muito tempo. Conheço produtores que cobram 60% por espectáculo, mas tudo depende dos gastos que têm com o músico. A produtora tem que investir na imagem. E quando falamos de imagem, estamos a falar de produção, transporte e outros itens.

Nos dias de hoje, quanto é que um artista gasta para produzir um CD?

Como já referi, depende muito do tipo de música, pois há músicas que podem custar dois ou três milhões de kwanzas, mas o que nós temos feito é economizar ao máximo e gastar cerca de 800 mil a um milhão de kwanzas numa música. Na Quebra-Galho temos produções de 400 mil kwanzas, de 700 mil e também de um milhão. Também há de dois milhões, mas no entanto isso não significa que a produção de 400 mil kwanzas não tenha qualidade. Tudo depende das intervenções.

Quantos artistas o Caló produz por ano, em média?

Produzimos músicas para os próprios artistas da produtora e para os que não são agenciados pela produtora, por isso não temos um número exacto, é tudo muito relativo.

Depois do disco produzido, ainda há muitos encargos?

Sim. O disco, para chegar até Angola, passa por uma peneira. Por outro lado, para se comercializar o CDna Praça da Independência paga-se uma taxa de 60 a 70 mil kwanzas à Direcção Municipal da Cultura, e no Belas Shopping, para se vender o CD, também se paga uma taxa. A minha produtora paga impostos, senão não estaríamos a exercer as actividades que exercemos.

As produtoras nacionais têm trabalhado no sentido de internacionalizarem os seus artistas?

Sim, e muito. Mas temos um problema global: a língua portuguesa. A música brasileira também não tem muita expressão no exterior, e os cantores brasileiros dão graças a Deus por terem um país enorme, pois a população brasileira é suficiente para terem sucesso de vendas, porque se assim não fosse não veríamos os grandes cantores brasileiros nos Grammys. O Waldemar Bastos faz grandes espectáculos no exterior, assim como o Yuri da Cunha e o Anselmo Ralph, que para tentar dar a volta a esta limitação está a preparar qualquer coisa em espanhol, porque de Portugal não passamos. A Nigéria e o Congo, por exemplo, conseguem internacionalizar as músicas por causa da língua.

Apesar de todos os empecilhos que a música angolana tem enfrentado, considera o negócio rentável?

Sim, é rentável. E vou-lhe fazer uma pergunta. Aqueles trabalhadores que ganham 25, 30 ou 50 mil kwanzas por mês, não acham o seu salário rentável? Não comem? Não fazem qualquer coisa com o que ganham? Para mim é a mesma coisa. É rentável, mas quando apresentamos um bom trabalho e primamos pela qualidade da música, depois o resto irá depender da gestão. O que se ganha é preciso saber canalizar.

É lógico que há necessidade de mais oportunidades, os bancos têm que abrir mais o crédito às produtoras, e logicamente que para isso temos que oferecer garantias, porque a entidade bancária não quer correr riscos.

Neste momento, a sua produtora tem na manga a produção de quantos músicos?

Artistas afectos à produtora temos sete ou oito, mas estou a produzir outros artistas que não estão vinculados à produtora.

Quais os desafios que enfrenta para este ano?

A prioridade é o álbum da Tamara Nzagi. Este álbum deve sair brevemente, porque se popularizou e as pessoas o têm pedido, depois tem a Lumoine Zaide, que foi a voz revelação feminina deste ano, prémio que a Tamara recebeu o ano passado. Lancei recentemente uma música da Otchaly e vou lançar agora o da Catarina. Fixem este nome! A Catarina tem uma voz muito bonita e o disco será editado com músicas lindíssimas.

Tenho outros músicos na escola de música. Por ser rentável, estou a exigir que eles estudem e se preparem, pois têm de ter aulas de canto, têm que melhorar a voz, tocar um instrumento. Encaminho alguns dos meus artistas para a escola de música Mingos, pus duas pessoas a aprenderam a tocar guitarra e daqui a algum tempo pretendo abrir uma escola de música. Tenho esta ideia, que se Deus quiser será uma realidade.

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