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Cremildo Paca investe na inovação agrícola

O jurista aproveita as oportunidades proporcionadas pela actividade de advocacia para desenvolver o lado empresarial, que descobriu ainda na adolescência.

Por César Silveira | Foto Njoi Fontes 

Investir o conhecimento em parcerias empresariais com o objectivo de obter resultados líquidos tem sido a estratégia do jurista Cremildo Paca, que tem no seu portefólio de investimentos o primeiro pólo agrícola de hidroponia do País, inaugurado em Março de 2017.

“O investimento pode ser feito pela via do conhecimento, por meio de terrenos, pela via dos recursos humanos ou do capital, bem como pelos equipamentos. De entre todas estas áreas, eu estou enquadrado apenas numa. O conhecimento é um capital e quem o souber aplicar devidamente poderá com ele gerar resultados. Dedico-me à minha actividade de advocacia e é no âmbito dela e da consultoria que surgem oportunidades, porque estamos permanentemente em contacto com investidores nacionais e estrangeiros”, afirma o jurista, que fala pela primeira vez sobre a sua faceta empresarial.

Sublinha, no entanto, ser “investidor e não empresário”, e que “há que separar as águas. Algumas pessoas têm participações, acções ou investimentos, mas isso não quer dizer que sejam necessariamente empresários”.

A ligação de Cremildo Paca aos negócios começou ainda na adolescência, afirmando ter herdado esse espírito dos pais. “Não é uma coisa nova na minha vida [a ligação aos negócios]. O meu pai, quando deixou a vida militar nos anos 80, dedicou-se ao comércio. Estávamos ainda na época do partido único e os comerciantes que existiam na altura tinham de ser devidamente autorizados, e ele era um deles. Vinha buscar as mercadorias a Luanda para vender na província. Com sete anos, ia para a loja e ficava por trás do balcão a tentar arrumar as mercadorias e a ajudar a vender.”

O seu mais recente projecto, o sistema de hidroponia, que é a técnica de cultivar plantas sem solo, em que as raízes recebem uma solução nutritiva balanceada que contém água e todos os nutrientes essenciais ao desenvolvimento da planta, é realizado através da empresa Hidrobem e tem como parceiro o grupo empresarial Kibabo, com o qual desenvolve outras iniciativas. O primeiro projecto com este grupo aconteceu há quase cinco anos e os resultados positivos fizeram acreditar que outros poderiam ser incrementados. “A Hidrobem é um projecto de angolanos e de portugueses, que foi implementado para resolver o problema da produção interna de hortícolas, daí a combinação de investidores e técnicos angolanos e portugueses que cá vivem e que investem efectivamente, enfrentam os mesmos problemas no dia-a-dia e celebram as conquistas do País.”

A aposta no sistema surgiu da decisão de os investidores aproveitarem as oportunidades que aparecem devido à actual conjuntura económica do País, mormente as importações.

“Não havia planos de investir na agricultura. Este investimento, em particular, resultou da oportunidade em função das circunstâncias actuais da economia. Se não estivéssemos numa situação de crise, eventualmente não teríamos entrado nesta área. Portanto, a crise deu-nos a oportunidade de vermos que é possível fazer alguma coisa com reduzido investimento. E estamos a fazer isto porque acreditamos piamente ser viável. As pessoas comem todos os dias, o que significa que a área da alimentação é uma boa área para se investir. Temos outras áreas de negócio e tivemos que nos adaptar à realidade e reestruturar os planos de negócio e os nossos objectivos. Fizemos estudos, visitámos estufas, designadamente em Espanha e Portugal, e obtivemos formação e conhecimentos técnicos que nos permitiram implantar o projecto.”

A hidroponia foi a escolha, por estarem convencidos de que é efectivamente a “agricultura do futuro”. Aliás, este sistema de produção marca a denominada “revolução agrícola”, como defendem os diversos especialistas do sector.

“É um sistema que substitui o solo pela água, ou seja, é uma técnica de cultivo sem recurso ao solo, e num ambiente de grandes dificuldades de infra-estruturas pode ser incrementado perto dos centros urbanos e de consumo. Quais as vantagens deste processo? A poupança de água em quase 70%. Segue-sea sua alta produtividade em pequenas explorações, conseguindo-se consideráveis quantidades de hortícolas. A durabilidade e a alta qualidade do produto final não estão dependentes da qualidade do solo, muito menos dos adubos ou pesticidas. É um sistema de produção intensiva, sem interrupção e com mais ciclos anuais, permitindo produzir em qualquer altura do ano e em contraciclo, porque não depende do clima, visto que não interessa se há chuva ou sol”, argumentou.

A produção em menor ciclo é outra das vantagens destacadas pelo investidor, que realça também o facto de o sistema ser actualmente utilizado em muitos dos países que têm grande produção de hortícolas. É uma técnica que começou nos Estados Unidos da América e Canadá e rapidamente se expandiu para todo o mundo.

“Esta técnica é utilizada em quase todos os países da Europa na produção de hortícolas e tomate, e também nos países do Médio Oriente, no caso Israel e os Emirados Árabes, e na Ásia, no cultivo destes mesmos produtos. Aqui em África encontramos este sistema em Marrocos, que, inclusive, exporta o tomate produzido para a Europa; na África do Sul, também com larga exportação de tomate, que vem para Angola; na Tunísia, Namíbia e outros ainda.

E até é implementada em países da América do Sul, como o Brasil e a Argentina. Ou seja, actualmente as hortícolas, em grande parte do mundo, são produzidas neste sistema de hidroponia, porque permite produzir com maior celeridade e em espaços mais pequenos, e tem uma maior rentabilidade, porque, ao contrário da produção tradicional, que está dependente dos ciclos da Natureza, esta produção é permanente. Em muitos países é o sistema de eleição para o cultivo de hortícolas, inclusive tomate, pepino e morangos”, adiantou.

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