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O advento da Inteligência Artificial

Mesmo que a revolta dasmáquinas seja ainda um cenário de ficção científica, a rápida evolução da AI coloca à Humanidade novas dúvidas e questões, a começar pelo futuro do trabalho.

Por Paulo Narigão Reis 

Elon Musk repetiu, no mês passado, o que anda a dizer há alguns anos: a inteligência artificial é “um risco fundamental para a civilização humana”. O patrão da Tesla, que até se pegou com o “rival” Mark Zuckerberg por causa do assunto, faz parte da escola Skynet, a grande empresa fictícia de inteligência artificial que lança o Dia do Juízo Final na saga Terminator e acredita que caminhamos, inexoravelmente, para a revolta das máquinas e consequente aniquilação ou escravização da humanidade, ideia que já foi partilhada por mentes brilhantes como, por exemplo, Stephen Hawking. Cenários de ficção científica à parte, por mais realisticamente inquietantes que sejam, a inteligência artificial (AI na sigla em inglês universalmente utilizada) faz parte do nosso futuro, colectivo e individual, e dela não podemos escapar. Para o bem ou para o mal. A AI já faz parte das nossas vidas, mesmo que nem sequer tenhamos consciência do facto, e a partir daqui será sempre a subir. A começar pelo trabalho.

“Um robô ficou com o meu emprego”

No século passado, a robotização da sociedade era um assunto popular entre os escritores de ficção científica, entre visões esperançosas ou distópicas.
Acreditava-se que a mecanização tornaria, eventualmente, o trabalho humano completamente supérfluo, já que existiriam máquinas para fazer tudo. A abordagem era, invariavelmente, positiva no que à transferência da força de trabalho diz respeito. O ser humano, livre do trabalho, teria todo o tempo do mundo para se dedicar a tarefas mais elevadas, se o desejasse, ou poderia mergulhar no hedonismo sem quaisquer problemas de consciência. Em falta estava, quase sempre, o elemento económico: se o trabalho seria feito por robôs, como é que os humanos ganhariam a vida? Para estes escritores, alguns verdadeiramente visionários, a questão nem se punha. As sociedades que imaginaram habitavam o mundo do pós-trabalho.
Na vida real das primeiras décadas do século XXI, pós-trabalho é sinónimo de desemprego. A crescente automatização da sociedade criou um problema sem solução à vista. De que é que vão viver os homens e mulheres que vêem o seu emprego tornado obsoleto, substituídos por máquinas mais ou menos pensantes?
Em Setembro do ano passado, um relatório da empresa de estudos de mercado Forrester dava alguns números, embora limitados ao mercado norte-americano: em 2021, os robôs terão eliminado 6% dos postos de trabalho dos Estados Unidos, a começar por tarefas como os serviços ao consumidor e, eventualmente, o transporte de passageiros e cargas. “Em 2021 terá já começado uma onda disruptiva. As soluções baseadas em tecnologia cognitiva/AI irão destruir empregos, com o maior impacto a sentir-se nos transportes, na logística e nos serviços ao consumidor”, lê-se no estudo da Forrester. Os assistentes virtuais são já, aliás, uma realidade, nomeadamente no mundo ocidental. Nas indústrias dos transportes, a revolução tecnológica parece imparável.

Empresas de ponta como a Google, a Tesla ou a Uber estão a trabalhar a todo o gás em veículos autónomos, qu poderão invadir as nossas estradas mais cedo do que estamos à espera, tornando obsoletas profissões como a de motorista de táxi. A revolução chegará também aos transportes de carga com o advento dos camiões autónomos. Só nos Estados Unidos, existem actualmente 3,5 milhões de camionistas que, num futuro não muito distante, poderão ficar sem emprego.

Nas economias desenvolvidas, a mudança já se começa a sentir, apesar das promessas dos políticos quando querem ganhar eleições. A verdade é que muitos trabalhadores, grande parte deles sem qualificações, competem por um número cada vez menor de empregos. E não existe verdadeiramente um plano a médio e longo prazo para resolver um problema tendencialmente explosivo. O que fazer às crescentes massas de pessoas cujo trabalho é, por assim dizer, descontinuado sem que aumente ainda mais a desigualdade? Até porque, à distância (cada vez mais curta), parece que estamos perante um “Catch 22”, um problema cuja solução óbvia só criará outro problema…

A ideia de atribuir a todas as pessoas um rendimento básico, sem quaisquer condições, tenham ou não emprego, é ainda pouco pacífica, reunindo apoios ou reservas quer à esquerda quer à direita. Os detractores do RBI dizem que irá desencorajar a procura de emprego e criar sociedades desresponsabilizadas e ociosas. O egoísmo natural do ser humano será sempre um factor a considerar, mas, tendo em conta o advento da AI e da automatização, não será uma solução a ponderar?

Voltamos aqui ao “Catch 22”. Se haverá cada vez menos empregos, como se financiará o RBI? Já este ano o Parlamento Europeu lançou uma hipótese para a discussão: se os robôs poderão agravar a desigualdade, porque não taxá-los? O relatório, preparado pela eurodeputada luxemburguesa Mady Delvaux, propõe que as contribuições fiscais e para a segurança social perdidas pela substituição da força de trabalho recaiam, proporcionalmente, sobre as empresas que coloquem as máquinas a fazer o trabalho que antes era feito pelos humanos. A reacção à ideia de Delvaux foi tendencialmente negativa, mas recebeu um apoiante de peso: Bill Gates.

Para o fundador da Microsoft e o homem mais rico do mundo, se um robô fica com o nosso trabalho, deveria pagar impostos. Até porque, segundo um recente estudo da PwC, a AI terá acrescentado, em 2030, mais de 15 biliões de dólares à economia global.

Leia mais, nesta edição de Agosto da Revista Rumo, já nas bancas. 

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