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A economia precisa de voltar a ser real

“Nós somos Wall street.O nosso trabalho é ganhar dinheiro. Seja com matérias-primas, acções, títulos ou uma hipotética folha de papel falso, não importa. Negociaríamos cromos de basebol se fossem lucrativos…Comemos o que matamos e, quando a única coisa que houver para comer estiver no vosso prato, iremos também comê-la.”

Por Paulo Narigão Reis

Pode parecer exagerada, mas esta declaração, que a economista e jornalista Stacy–Marie Ishmael escreveu, em 2010, no blogue Alphaville, do Financial Times,dá o mote para explicar como, nas últimas quatro décadas, a finança tomou conta da economia.

De como ganhar dinheiro a partir de dinheiro, sem passar pelo aparelho produtivo, se tornou o fim em si próprio da economia global. E de como o interesse de poucos se tornou mais importante do que a vida de todos os outros. A financeirização da economia mudou o mundo. E hoje o mundo começa a perceber que talvez se tenha ido longe de mais, como provam a crescente – e permanente – volatilidade dos mercados, as crises consecutivas e o aumento da desigualdade.

Não há como negá-lo: a circulação e a acumulação de capital por parte do sistema financeiro separaram-se progressivamente do investimento produtivo, num processo de simples acumulação por acumulação que começou no final da década de 70. O crescimento do sector financeiro em escala, alcance e capacidade lucrativa em relação ao tamanho real da economia global é por demais evidente. No Reino Unido, por exemplo, o sector financeiro vale hoje mais de 400% do PIB, quando em 1960 a percentagem era de 40%. O mesmo vale para os Estados Unidos e para outras economias desenvolvidas, onde os números são semelhantes. O shareholder value substituiu o stakeholder value. Ou seja, maximizar o lucro do accionista de uma empresa tornou-se mais importante do que o interesse do cliente, do trabalhador e do público em de observar, incluindo para a própria democracia.

“A financeirização remete para um modelo de sociedade em que o mercado prevalece sobre o princípio igualitário da política democrática: enquanto a democracia dá a todos o mesmo recurso de poder (o voto), as relações no mercado favorecem aqueles que têm mais recursos económicos, criando uma tensão geradora de desigualdade”, afirma à RumoRui Branco, professor de Estudos Políticos da Universidade Nova de Lisboa.

A capacidade dos Estados democráticos em responder às necessidades dos seus cidadãos fica a perder em relação às exigências que lhes são impostas pelas instituições financeiras, instituições essas que estão, cada vez mais, livres das imposições que lhes foram impostas pelos governos fundamentalmente social-democratas em meados do século passado, nomeadamente na Europa. Há quem argumente que vivemos o início do que pode ser chamado de pós-democracia. “Há um cientista político, chamado Peter Mair, que fala em ruling the void, governar o vazio”, diz Rui Branco. “As democracias são hoje sistemas que governam o vazio no sentido em que se abriu um fosso entre partidos apenas preocupados em ocupar o Estado e tirar benefícios do poder, partidos que viraram costas às pessoas e pessoas que viraram costas aos partidos, que participam cada vez menos na política, nas eleições e que desconfiam de todas as instituições democráticas”, acrescenta.

O economista alemão Engelbert Stockhammer tem vasta obra publicada sobre a financeirização. Para o professor na Kingston University, no Reino Unido, a financeirização contribuiu em grande parte para os fracos níveis de crescimento de que a economia global padece actualmente e para o aumento dos níveis da dívida que se verifica desde o início dos anos 80. “A financeirização foi possível graças a uma série de medidas tomadas para desregular o ector financeiro e para liberalizar os fluxos de capitais internacionais. Muitas destas medidas apareceram como reacção às tentativas crescentes, por parte dos agentes privados, para contornar a regulação financeira existente”, considera Stockhammer.

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